Pirilampo, andarilho,
Mulambo sem abrigo,
Violeiro de trovas repetidas,
Cancioneiro de ladaínhas
Cheias de melancolia,
Porém salpicadas de melodias.
Mas quando festivas serpentinas,
Assim, repentinas,
Surgem furtivas e tornam trovas poesia,
Enegreço minha vista,
Entorpeço as narinas,
E dispo a alma vestida
Do espartilho escarnecido,
Da camisa dos enlouquecidos,
Das muralhas amarradas a tantas outras vestidas,
E das ladaínhas antes tingidas
De verniz da melancolia que me inspira,
Assopro como Deus o barro sagrado.
De pirilampo prostrado,
Viro boêmio na avenida
Em plena quarta de cinzas,
Com fantasia própria,
Sem esperar o fim da felicidade
Nem o início da noite sóbria.
Como andarilho, sigo.
E em cada passo,
Encontro o inesperado.
Será acaso, coincidência,
Na próxima esquina,
Deparar-me, assim,
Com tua presença?
Porque é dela onde brotam fungos, transforma-se húmus, sucumbem túmulos, surgem larvas que se multiplicam e irradiam cheiro, cor e o ciclo da vida faz-se em flor.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Brinca-lho-ão!
Ata-me, atabaque!
Busque-me no breque,
Mostre-me batuques,
Mata-me de enfartes!
Não cesse neste baque,
Descasque este moleque,
Caindo em recalques,
Catarse de pileques.
Cuspa-me aos cacos,
Jogue-me aos montes
Arranque-me nacos
De risos desta fronte
Edite-me, edite-me, edite-me
Medite, medite, medite.
Busque-me no breque,
Mostre-me batuques,
Mata-me de enfartes!
Não cesse neste baque,
Descasque este moleque,
Caindo em recalques,
Catarse de pileques.
Cuspa-me aos cacos,
Jogue-me aos montes
Arranque-me nacos
De risos desta fronte
Edite-me, edite-me, edite-me
Medite, medite, medite.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Vai gostar de si (depois me diz se o gosto é bom)
Sempre pedem novas provas
Mas nunca ninguém prova nada.
Se a vida é um jogo, e a prova é dura,
Vai provar minha jogada?
Vamos juntos nesta empreitada.
Se hoje é a nossa vez, já sei
Qual vai ser a minha cartada.
E digo, e aposto, e pago, e provo
A proposta está fechada.
Então vá gostar de si depois me diz se o gosto é bom.
Equivocada...
Mas não aprovo essas condutas
De quem não aprova nada.
Mas nunca ninguém prova nada.
Se a vida é um jogo, e a prova é dura,
Vai provar minha jogada?
Vamos juntos nesta empreitada.
Se hoje é a nossa vez, já sei
Qual vai ser a minha cartada.
E digo, e aposto, e pago, e provo
A proposta está fechada.
Então vá gostar de si depois me diz se o gosto é bom.
Equivocada...
Mas não aprovo essas condutas
De quem não aprova nada.
Golpes e gritos de amor
Há um capítulo no Kama Sutra chamado "Golpes e gritos de amor", que eu adaptei da seguinte forma:
Se o amor, por natureza,
É sentir suavidade na dureza,
Vou te surrar com amor
Te violentar com uma flor,
E atiçar o prazer desta doce dor.
Minha natureza é ser mais duro que você,
Deixei a piedade na saída.
Mas te vejo delicada e tão tímida.
Se eu bater, será que você grita?
Mas se a paixão sufoca,
E a postura especial excita,
Valem estes costumes do país:
O homem é quem escreve,
E a mulher é quem diz.
Mas muitas vezes a paixão inflama,
E o pensamento não tem causa ou consequência,
Assumo esta pura violência,
E te aprisiono nos lençóis da minha cama.
O sexo perturba o equilíbrio
Com anseios e desejos pitorescos
Que afloram a imaginação de um homem,
E quando faz amor é mais estranho que grotesco.
E cavalgamos feito cavalo alado
Explorando a relva deste vasto prado,
Mas não exerga, feito cego que tateia,
Crava unhas, mostra dentes,
Cerra punhos, reza o terço.
Procure sempre recordar:
Ela é mais fraca que você,
Mas sua paixão é bem mais forte,
E como nem todas gostam de apanhar,
Pense duas vezes pra ver no que vai dar.
Se o amor, por natureza,
É sentir suavidade na dureza,
Vou te surrar com amor
Te violentar com uma flor,
E atiçar o prazer desta doce dor.
Minha natureza é ser mais duro que você,
Deixei a piedade na saída.
Mas te vejo delicada e tão tímida.
Se eu bater, será que você grita?
Mas se a paixão sufoca,
E a postura especial excita,
Valem estes costumes do país:
O homem é quem escreve,
E a mulher é quem diz.
Mas muitas vezes a paixão inflama,
E o pensamento não tem causa ou consequência,
Assumo esta pura violência,
E te aprisiono nos lençóis da minha cama.
O sexo perturba o equilíbrio
Com anseios e desejos pitorescos
Que afloram a imaginação de um homem,
E quando faz amor é mais estranho que grotesco.
E cavalgamos feito cavalo alado
Explorando a relva deste vasto prado,
Mas não exerga, feito cego que tateia,
Crava unhas, mostra dentes,
Cerra punhos, reza o terço.
Procure sempre recordar:
Ela é mais fraca que você,
Mas sua paixão é bem mais forte,
E como nem todas gostam de apanhar,
Pense duas vezes pra ver no que vai dar.
Vi você por aí
Vi você naquela esquina,
Na vitrine da sapataria
Ao lado de uma esguia manequim
Se puxasse assunto,
Ou ao menos desejasse bom dia,
Talvez você não estivesse afim.
Achei você na janela do metrô
Aglomerada entre milhares de olhares,
Olhares sem sentido.
O metrô freou,
A gente se esbarrou,
O friozinho na barriga
Que você sentiu
É o mesmo que eu sinto
Se eu for, você vem?
Nossa volta é nossa ida,
E assim nos encontraremos
Sempre em alguma esquina
Em inesperadas quinas,
Em nossas próprias ilhas,
Em pilhas e pilhas
De sinas,
E os demais sinais
Iluminarão nossos ais.
Ontem sonhei com você
E até pensei em ligar de madrugada
Sei bem como seria
Seu sorriso antes de me atender.
Na vitrine da sapataria
Ao lado de uma esguia manequim
Se puxasse assunto,
Ou ao menos desejasse bom dia,
Talvez você não estivesse afim.
Achei você na janela do metrô
Aglomerada entre milhares de olhares,
Olhares sem sentido.
O metrô freou,
A gente se esbarrou,
O friozinho na barriga
Que você sentiu
É o mesmo que eu sinto
Se eu for, você vem?
Nossa volta é nossa ida,
E assim nos encontraremos
Sempre em alguma esquina
Em inesperadas quinas,
Em nossas próprias ilhas,
Em pilhas e pilhas
De sinas,
E os demais sinais
Iluminarão nossos ais.
Ontem sonhei com você
E até pensei em ligar de madrugada
Sei bem como seria
Seu sorriso antes de me atender.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A porta de saída, o dono do mundo
Então os orifícios oráculos se reuniram para discutir quem era mais poderoso como dono do mundo.
Os olhos iniciaram a peleja:
- Nós tudo vemos, tudo analisamos...
Os ouvidos se defenderam:
- Mas se cegos, não há nada a escapar de nós, os ouvidos!
E foram retrucados pelas narinas:
- Ora, mas que audácia! Sem nossa presença, não há respiração, inspiração, expiração...
Só que a boca se manifestou:
- Inspiração? Expiração? Também faço isso! E ainda recito palavras sagazes e transformadoras!
Enquanto discutiam, um orifício calado ficava no seu canto, quieto, trancado. Nada dizia. Sentia-se preso.
Cada vez mais que se prendia, mais apertava sua angústia.
Nisso, os olhos começaram a lacrimejar; os ouvidos se entupirram; as narinas ofegaram; e a boca não se conteve:
- Solta aí, cu! Senão todo mundo explode!
Não havia mais dúvida, era ele o mais poderoso dono do mundo.
Os olhos iniciaram a peleja:
- Nós tudo vemos, tudo analisamos...
Os ouvidos se defenderam:
- Mas se cegos, não há nada a escapar de nós, os ouvidos!
E foram retrucados pelas narinas:
- Ora, mas que audácia! Sem nossa presença, não há respiração, inspiração, expiração...
Só que a boca se manifestou:
- Inspiração? Expiração? Também faço isso! E ainda recito palavras sagazes e transformadoras!
Enquanto discutiam, um orifício calado ficava no seu canto, quieto, trancado. Nada dizia. Sentia-se preso.
Cada vez mais que se prendia, mais apertava sua angústia.
Nisso, os olhos começaram a lacrimejar; os ouvidos se entupirram; as narinas ofegaram; e a boca não se conteve:
- Solta aí, cu! Senão todo mundo explode!
Não havia mais dúvida, era ele o mais poderoso dono do mundo.
domingo, 15 de agosto de 2010
Vocaboilário
Vocaboilário é de nossa lavra,
O boi animal sagrado
Do tempo dos faraós.
Em São Luis festejado
No bumba alegre bailado
Que vem dos nossos avós.
Pois o boi, nossa ilha,
Que é sucesso, é maravilha,
Com festa no calendário,
Mereceu por seu valor,
Que este humilde trovador
Criasse o vocaboilário,
Assim conforme se prova
Por esta linguagem nova:
Boi que dança é boilarino,
Boi pedante é caboitino,
Boi do mato é boitocudo,
Boi pernóstico é boiçal,
Boi pau d’água é boirracho,
Boi farrista é boiêmio,
Que adora dançar boileros,
E suas mágoas abate na mesa do boitequim.
Porém se o casal é chique,
Vive a vaca na boitique,
Vive o boi na boiate.
Chapéu de vaquinha é boina,
De bezerro é boiné,
Moleque é boistroina,
E boi bom de boila é Pelé.
Boi da Bahia é boiano,
Que uma vez por ano vê
O Senhor do Boifim.
Tem nome de Ferdinando
O boi que anda reboilando,
Pondo as patas nos quadris
E movendo os olhos castos,
Adora cheirar nos pastos
Boínas e boi garis.
Boi que boicota o capanga,
Faz saboitagem na canga,
E aboimina o capataz.
É boi aboilicionista
Que só vantagens conquista
Nos reboiliços que faz.
É boi de fala boinita,
Boi forte, boi manda chuva
E quando faz seus comícios
Cultivando a flor do laço,
Lembra José Boinifácio
E Quintino Boicaiúva.
Defino o fim desta obra
E que boibagem se desdobra,
Ao invés de dizer "bye, bye",
Eu digo a vocês "boi, boi"
(Zé Brasil)
O boi animal sagrado
Do tempo dos faraós.
Em São Luis festejado
No bumba alegre bailado
Que vem dos nossos avós.
Pois o boi, nossa ilha,
Que é sucesso, é maravilha,
Com festa no calendário,
Mereceu por seu valor,
Que este humilde trovador
Criasse o vocaboilário,
Assim conforme se prova
Por esta linguagem nova:
Boi que dança é boilarino,
Boi pedante é caboitino,
Boi do mato é boitocudo,
Boi pernóstico é boiçal,
Boi pau d’água é boirracho,
Boi farrista é boiêmio,
Que adora dançar boileros,
E suas mágoas abate na mesa do boitequim.
Porém se o casal é chique,
Vive a vaca na boitique,
Vive o boi na boiate.
Chapéu de vaquinha é boina,
De bezerro é boiné,
Moleque é boistroina,
E boi bom de boila é Pelé.
Boi da Bahia é boiano,
Que uma vez por ano vê
O Senhor do Boifim.
Tem nome de Ferdinando
O boi que anda reboilando,
Pondo as patas nos quadris
E movendo os olhos castos,
Adora cheirar nos pastos
Boínas e boi garis.
Boi que boicota o capanga,
Faz saboitagem na canga,
E aboimina o capataz.
É boi aboilicionista
Que só vantagens conquista
Nos reboiliços que faz.
É boi de fala boinita,
Boi forte, boi manda chuva
E quando faz seus comícios
Cultivando a flor do laço,
Lembra José Boinifácio
E Quintino Boicaiúva.
Defino o fim desta obra
E que boibagem se desdobra,
Ao invés de dizer "bye, bye",
Eu digo a vocês "boi, boi"
(Zé Brasil)
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