sexta-feira, 16 de abril de 2010

Conto do pintor

"Conto do pintor", a música cantada originalmente por Moreira da Silva, e sua versão setentista feita por Jards Macalé, do álbum "Contrastes" (1977), no vídeo abaixo.

Conto do Pintor
Moreira da Silva
Composição: Miguel Gustavo

Desembarquei fantasiado de pintor
No aeroporto já encontrei o Ibrahim
Fez um discurso e apresentou-me ao Dourado
que já de cara deu apartamento para mim.

- Moringueira vais levar um duplex?
- É o seguinte, eu não mereço, eu não mereço tanto. É muita gentileza sua.

Fomos direto ao museu de arte moderna
A grande obra de madame Guiomar
Condecorando-me com a ordem do vaqueiro
O Chateaubriand quase chegou a me estranhar

- Embaixador, deixa isso pra lá. Vossa excelência que é o admirador e protetor das artes do Brasil.

Mas ali mesmo demonstrei o meu talento
Pintei triângulos redondos e um quadrado todo oval
Eles olhavam perturbados e diziam
"Esse Moreira é um artista genial!"

Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"

Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"

Pintei um quadro só por fora das molduras
Eu joguei tinta nas paredes todo mundo achou legal
Eu comi rosas e as madames exclamaram
"Esse Moreira é um artista genial!"

E eu que não pintava nem nos muros da Central!

Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"

Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"

Fui à Brasília dei um quadro de presente ao maioral. Era um triângulo redondo, mas Nonô achou legal.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

As águas estão certas

O Rio de Janeiro é uma cidade peculiar. Uma metrópole situada num local cuja natureza geográfica nunca aceitaria um crescimento urbano intenso. A faixa entre a serra e o mar é relativamente estreita e extremamente acidentada para o brotamento de centenas de arranha-céus deslumbrantes, milhares de vias asfaltadas por onde circulam milhões de carros diariamente, incontáveis esqueletos de casas nos morros, e uma arrebatante cultura que privilegia sempre o privado sobre o público.

Este não foi o primeiro temporal que castigou o dia-a-dia do carioca. Também não será o último. Todos os anos as águas de março fecham o verão sem a mínima beleza dos versos de Tom Jobim. Nos pontos de sempre, a água chega até os joelhos, alagamentos param o trânsito por horas, entes queridos são perdidos, vitimados por deslizamentos ou enchentes.

Quero repetir: esta situação ocorre nos pontos de sempre. Nunca governante algum, prefeito ou governador, realizou obras de infra estrutura que contivessem este problema anual. Como no atual governo, privilegiaram sempre obras de maquiagem, para agradar os olhos e iludir os eleitores. Infra estrutura nunca entra na "agenda" dos políticos.

Neste ano, após o caos, o prefeito Eduardo Paes prometeu investir R$ 100 milhões em obras emergenciais. Depois da tempestade, depois da portaria arrombada, movem-se os traseiros. Durante todo verão este comportamento se repete, como no caso da epidemia de dengue. É bom lembrar que a epidemia de dengue não está dissociada das consequências dos temporais. Os nascedouros do mosquito têm origem justamente na soma do lixo com a água da chuva que não é escoada.

Quem passa pela região do Cais do Porto, na avenida Rodrigues Alves, sob o viaduto perimetral, vê como é a cara de todas as administrações que passaram pelo Rio de Janeiro. No extremo mais próximo ao Centro do Rio, há imensos tapumes da Prefeitura persuadindo a população de que este será o "Porto Maravilha", de braços abertos para investimentos privados. Mas nos locais esquecidos pelos investimentos, vê-se o retrato do abandono: lixo, muito lixo, esgotos que entopem em qualquer chuva e chegam a invadir as calçadas esburacadas, ruas escuras, sentimento de insegurança. E este exemplo do abandono é tão descarado que este cenário se encontra justamente à frente da rodoviária da cidade, onde gente de todo Brasil chega de ônibus ao Rio de Janeiro.

Não são apenas moradias de favelas que estão situadas em áreas de risco em encostas. Mansões no Recreio dos Bandeirantes, em São Conrado e em outros bairros de alto IPTU abrigam casas que, mesmo regularizadas, possuem iminente perigo de deslizarem. Da mesma forma, sempre ouvi dizer que os bairros da Barra e do Recreio estão num terreno arenoso que pode ruir sob condições intemperismo intenso. Lógico que haverá engenheiros com respostas prontas negando tais afirmações, mas diante de nosso clima indomável, não haveria motivo para preocupações e prevenções?

A cultura inabalável do privado sobre o público é uma verdadeira endemia carioca. Muitas ruas alagam sob qualquer chuva porque os bueiros entopem simplesmente devido ao comodismo de moradores que pensam que fazem suas partes ao colocar os lixos domésticos em sacolas plásticas amarradas no chão da calçada, ao pé dos postes. Meses atrás um menino de oito anos morreu em consequência da chuva no bairro de Quintino. As águas que ali corriam levavam amontoados de sacolas de lixo. Na Rua do Resende, no bairro da Lapa, basta chover um pouco mais forte para a maré bater na canela, e as causas são as mesmas: lixo na calçada.

Enquanto remediar for mais viável que prevenir, apenas por ser mais barato, enfrentaremos este problema. A culpa não é da chuva intensa, afinal, num país tropical, abençoado por Deus, nesta estufa chamada Mata Atlântica, entre a serra e o mar, não importa se há cristos redentores ou viadutos, arranha-céus ou barracos, as águas de março virão anualmente fechar o verão, como sempre o fizeram, muito antes de serem cantadas em versos.


quarta-feira, 24 de março de 2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mais uma propaganda da guerra na telona

Uma crítica ao filme "Guerra ao Terror" (The hurt locker, 2009)

Claro que os filmes sobre guerra de hoje não são como os de antigamente. Silvester Stalone jamais seria chamado para refazer um novo tipo de Rambo, o herói que leva a bandeira dos Estados Unidos até o quinto dos infernos, mata milhões, não recebe um tiro e ainda conta piadinhas. Aliás, as piadinhas são um vício da prepotência estadunidense. Em todas as cenas de conflito há espaço para elas: significa que os "heróis" são lúcidos e seguros até em momentos de crise.

"Guerra ao Terror" até que mostra os conflitos mentais de seu herói, já que se trata de um experiente desarmador de bombas (daí o título original "The Hurt Locker", muito diferente do "slogan" que colocaram na versão brasileira, "Guerra ao Terror"). Mas em vez de seus conflitos atentarem para o que todo cidadão planetário de bem pede, ou seja, a paz, o herói do filme confirma a guerra, pior, a justifica, assim como parece pretender os produtores de Hollywood. A guerra além de ser "um vício", como diz o filme, gera muito dinheiro, seja tacando bombas, seja propagando o terror.

A mim, cidadão brasileiro, planetário e cinéfilo, menos me deixa pasmado o fato deste filme ter recebido o Oscar (já que ele é feito para a "America", e não para nós) do os aplausos de nossos ilustríssimos críticos de cinema, que tanto formam a opinião dos leitores.

Continuamos importanto "rambos enlatados" para passar em nosso horário nobre.

domingo, 21 de março de 2010

Eu ou Marx?


Da série: Grandes Dúvidas Existenciais
Fausto Wolff

As grandes dúvidas existenciais me perseguem desde sempre. Não importa aonde eu vá ou aonde esteja, elas estão enchendo:

- Não vem que não tem. Nós, as grandes dúvidas existenciais, já te vimos e não vamos largar do teu pé.

Nem na cama me dão paz. Outra noite, acordei suado, febril. Uma dúvida enorme pousada sobre meu peito perguntava:

- Deves escrever um artigo mandando todos os grandes publicitários do Brasil tomar na BUNDAS ou deves fundar uma revista chamada HIPOCRISIAS e pedir a colaboração de todos os publicitários do Brasil?

Fui ao banheiro fazer pipi e uma dúvida existencial menor gritou:

- Tens de ficar respingando em cima de mim ou deverias te dedicar a ações mais nobres, como tirar as dúvidas da população sobre as dúvidas do Ciro Gomes?

Essa dúvida em verdade era um dúvido, pois embora mais baixinha, tinha a cara do Harpo Marx. Deixei-a se limpando dos respingos e fui fazer um café. O dúvido saltou sobre a mesa e aproveitei para inquirir.

- Existe todo tipo de dúvida existencial?

E ele:

- Existe. Eu trato das causas menores, como por exemplo a dos protozoários que vivem dentro do cu de um rato morto. Estão sempre olhando para o lado de dentro (como as criaturas de Platão na caverna) e se perguntando: “Diante deste espaço infinito, devemos duvidar da existência de outras criaturas inteligentes?”

- Fala de um outro tipo de dúvida aí – disse eu, como os dois milhões de repórteres da TV que não sabem xongas sobre quem estão entrevistando.

Marx tirou uma luneta de gabardine.

- Neste momento – respondeu ele – há uma grande dúvida emergente atormentando o banqueiro Lordoso Rochinho. Tem quase noventa anos e é um dos maiores ladrões do Brasil. Está se perguntando em voz alta: “Uma vez que já sou triliardário em dólares, não deveria parar de roubar?” Sua mulher, dona Nenzinha, porém, acaba de matar a dúvida a tapa. “Deixa de frescura, Lordô, e pensa nos nossos tataranetos que ainda não nasceram.”

Marxinho acabou de tomar o café enquanto me ouvia dizer:

- Pensei que as grandes dúvidas existenciais só atacassem grandes homens como eu.

- Que nada, rapaz, existem mais dúvidas do que criaturas – disse ele, botando a lutena no olho direito. - Neste momento, por exemplo, Fernando Collor deve estar se perguntando se deve usar uma gravata Hermés, aspirar Erythroxylaceae por via anal ou ser prefeito de São Paulo. Lula não sabe se no próximo encontro com ACM lhe dá um beijo nos lábios ou nas mãos.

E Sua Majestade, Fernando Henrique Cardoso? - perguntei cheio de esperança.

- Neste momento, aproveitando-se do profundo sono de dona Ruth, ele se olha no gigantesco espelho do Palácio. Diante de tamanha beleza desvairada, diante de tamanha erudição sorbônica, se pergunta: “Devo mudar de marca de xampu ou devo pôr uma fita de seda nos cabelos? Devo incendiar o Brasil ou devo cair de joelhos diante de mais de 200 milhões de brasileiros e pedir perdão?”

Marx pulou da mesa e disse:

- A conversa está muito boa mas tenho...

E eu, interrompendo-o:

- Você não podia me dizer antes de ir embora qual será a decisão de Sua Majestade?

- Fita no cabelo é barbada e, entre as dúvidas existenciais, está devolvendo capital. Mais alguma coisa ou posso ir embora?

- Me tire uma última dúvida. Por que os meninos pensam mais do que as meninas e as meninas falam mais do que os meninos?

- Essa é mole. Os meninos têm duas cabeças e as meninas quatro lábios.

O dúvido vai embora e eu, nervoso em relação ao destino do Brasil, bebo meio litro de uísque de estalo. Uma lagosta sai de um buraco da parede. Será mais uma grande dúvida existencial que vem me assolar ou não passa de um reles delirium tremens de pobre jornalista tropical? Eu ou Marx?

Publicação original na Revista Bundas, 22 de setembro de 1999

sexta-feira, 12 de março de 2010

Adriano, imprensa e preconceito

Todos sabem a origem de Adriano. Se não fosse pelo futebol, talvez se enquadaria na lógica do "preto, pobre e favelado". Mulato, milionário e recebido em qualquer lugar do mundo, Adriano assumiu a todos o gosto pela favela. Em Roma não havia churrasco regado na lage e todo clima noturno da favela carioca, um refúgio para o atacante. Adriano também não consegue esconder as turbulências pessoais, que a imprensa fareja como um rato acha o queijo.

Flamenguista e favelado. Tais características transformaram-se, na cabeça das pessoas, sinônimo de mau elemento. No caso de Adriano, que tem origem em um dos locais onde o tráfico de drogas mais se instaurou no Rio de Janeiro, associá-lo ao consumo de entorpecentes não é tarefa difícil.

Ainda não compreenderam, por descaso ou ignorância, a origem de Adriano.

"Nunca usei drogas, nunca provei nada. Quando falam do Adriano aumentam demais. De repente é porque moro na favela e aí associam. Mas lá tem coisas boas, pessoas boas, não vou sair de lá . Sempre fiz os exames e nunca fui acusado. Aí fico chateado porque as pessoas botam isso no jornal e tenho minha família. Ela se preocupa. Não tem nada ver. Meu filho vai à escola e vão dizer: 'seu pai é drogado'. Antes de falarem, têm de saber o que aconteceu."

A chamada para a reportagem onde se encontra este depoimento dizia que Adriano acusou preconceito, mas não dizia qual nem de quem.

Deve ter sido da terceira pessoa. Sabe a terceira pessoa? Aquela onde o sigilo da fonte do jornalista mais aparece.

- Adriano, dizem que você anda usando drogas. Isso é verdade?

O preconceito da imprensa foi preconceito social.

Matei um besouro


Um zumbido repentino me roubou a concentração, e quando olhei era um besouro posado de ponta cabeça ao lado da luz da sala. Não o queria ali, pois alguns insetos têm frequentado este apartamento ultimamente, sinal de que eu preciso arrumar isso aqui urgente. Olhei sua casca grossa e percebi que também me encarava. Era necessário uma medida drástica, pois certamente ele não me compreenderia e sairia em seguida voando pela janela. Mas não quis ser cruel. Dei-lhe duas opções: receber nesta casca grossa o perfume de um odorizante ou receber um belo jato de inseticida. Lógico que ele não iria me responder com palavras, então segurei cada lata com uma das mãos, levei-as às costas e sorteei sem olhar."Direita ou esquerda?" O besouro ficou em dúvida, precisava de ajuda, um inseto não é um bicho muito inteligente. Perguntei então de outra forma: "você é um besouro conservador ou é um besouro revolucionário?" Como um fóssil, ele não se movia, demonstrando muita tranquilidade. Este besouro não se intimidava em conviver com humanos. Devia ser um besouro revolucionário. Era de esquerda, sem dúvida. Apertei a mão esquerda e disse: "Seu destino está traçado, besouro".

Juro, eu não sabia qual mão segurava qual lata. Também não consegui associar qualquer relação com o que chamam de "esquerda", mas foi Uma pena a mão direita segurar o odorizante, talvez o besouro não morresse. Após o jato, ele caiu em espiral até o chão, exibiu a barriga amarela para cima, sacudiu as perninhas por uns instantes e aí sim virou um fóssil.

Não sei se tive pena do besouro. Este era seu destino.

Duas duras realidades

Dura realidade I "Quando a lenda se transforma num fato, publica-se a lenda", disse o jornalista sensacionalista do clássico f...