segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Santa Paciência



A tranquilidade é torta. A antipatia reina. Em frente ao ponto cheio de gente da engarrafada Nossa Senhora de Copacabana, um taxi fecha um ônibus, e o taxista, achando-se com razão, desce do carro e se posta à frente do coletivo para bater boca com o motorista. Provoca um engarrafamento de uns dez quilômetros. Minutos depois da cena, volta ao seu veículo e segue em frente. A discussão para, mas a tensão não. Logo em seguida, uma batida de lataria estronda alto. Susto. Apenas a porta de ferro de uma loja sendo fechada. Suficiente para causar arrepios em algumas espinhas no ponto. Um ônibus, mais à frente, freia de forma brusca, jogando os passageiros de pé em solavanco. Uma senhora é quase atropelada ao atravessar a avenida. Não sentiu nada, apenas o som do pneu queimando no asfalto. Na cidade, o silêncio é sujo pelo barulho dos carros.  

terça-feira, 25 de junho de 2013

Conectados

Meus amigos todos estão conectados
Mas ninguém sabe o que vai rolar mais tarde.
Todos saem sem fazer alarde,
Sabem bem da gama de possibilidades
De que cada instante pode ser,
De que cada segundo pode durar
Por toda eternidade.

Será que amanhã estarão todos com saudade?

Meus amigos todos estão pela cidade
Andam sob ruas, pairam sobre lajes
Todos chegam sem fazer alarde
Desconhecem riscos e instabilidades
De que cada pessoa pode ser
De que cada ser humano pode virar
Uma celebridade.

Inimigos, inimigos

Inimigos, inimigos,
Negócios a parte.
De que lado que eu brigo?
A guerra é uma arte.

Bandido, bandido,
Está me dando trabalho.
Será que fico arrependido?
Ele paga meu salário.

Bato ponto em hora extra
E nem sobra pra cerveja,
Pra onde tá indo meu quinhão?

Sangria, sangria,
A bolsa foi esfaqueada
Pelo estado, pelo empresário,
Jogaram o público na privada.

Lobo mau fazendo lobby,
E vovozinha tão esnobe,
Ninguém quer deixar de ser patrão.

Conexões e tubos,
Diques e propinodutos,
Sempre vai sair pelo ladrão.

Manifesto e Estatudo do Homem

Tá faltando poesia nas manifestações populares.

A violência arde os olhos.
A liberdade de expressão que aparece
Aperta os nós na garganta.
A mudez da paz conclama para a luta
Contra o método de cura,
Via remédio amargo
De cápsulas de bala perdida. 

E numa plena segunda-feira,
Entrou como raio de sol pela janela,
Uma coragem nunca antes na história,
E se abriram os olhos do gigante,
Belo adormecido,
Num berço esplêndido
Há meio milênio.

Vai então a sugestão ao Congresso Nacional para que aprove cada artigo abaixo! Se precisarem de um plebiscito para votarem nele, que o país faça um plebiscito! Tirado de um poeta que imortalizou o poema abaixo, e que já até vi o Artigo II pintado num muro...

 ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

                                           A Carlos Heitor Cony



    Artigo I

   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira.


   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


   Artigo III

   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.


   Artigo IV

   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.

           Parágrafo único:

           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino.


   Artigo V

   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa.


   Artigo VI

   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


   Artigo VII
   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo.


   Artigo VIII

   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor.


   Artigo IX
   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura.


   Artigo X
   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco.


   Artigo XI

   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã.


   Artigo XII

   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.

           Parágrafo único:

           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.


   Artigo XIII

   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou.


   Artigo Final.

   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.
  Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Conversa poliglota paralela num ônibus cheio

Foi que na Avenida Princesa Isabel, no ponto anterior ao túnel que leva a Botafogo, entrou no ônibus um grupo de europeus, todos com a tez branca devidamente corada. Eram uns seis, rosados e suados, procurando esbaforidos lugares para sentar. Foram passando diretamente pela roleta com a permissão do trocador. A loira esguia, de óculos escuros, sentou-se a janela, na cadeira reservada a gestantes e idosos. Dois a cercaram, pendurando os braços nos ferros. Um acomodou-se, em pé, no espaço destinado a cadeirantes. Outro decidiu desgarrar-se do grupo ao ver uma mulher mulata e decotada passando por ele e seguindo ao fundo. Outra do grupo, uma morena de olhos claros, apareceu e ocupou o lugar ao lado da amiga loira. Começaram a conversar alto num idioma cheio de consoantes, alegremente, com direito a risadas. Restaram outros dois do grupo, ainda na roleta, um dos quais responsável por pagar a passagem de todos. Ele deu o dinheiro, mas o trocador, um jovem de óculos, avisou, em alto e bom português, que faltavam três e cinquenta. 

Com o impasse, engarrafou-se a entrada. Quem ainda não tinha girado a roleta espremeu-se, e o ônibus seguiu. Lá atrás, o restante do grupo notou que algo estava errado. O trocador repetiu por três vezes, gesticulou com os dedos, até que o gringo revelou esforçosamente:
- Naum... falow... portu-gueish...

O trocador exaltou-se:

- Não tenho nada a ver com isso. Só quero saber dos três e cinquenta que faltam!

Demorou alguns minutos, e o gringo só entendeu quando a senhora ao lado traduziu a mensagem em inglês. O débito foi pago. O gringo, junto com o outro amigo, voltou para o grupo resignado com a situação, mas contagiou-se com a euforia dos outros. O trocador aproveitou para desabafar com o motorista, tenso com o engarrafamento dentro do tunel.

- Vem pro Brasil querendo tirar marra? Aqui não é assim não! - bradou o trocador.

O ônibus lotou no ponto seguinte, em frente ao Rio Sul, e a conversa do trocador com o motorista ganhou adeptos, aqueles que não passaram pela roleta. Os gringos conversavam num outro tom, cheio de gargalhadas jocosas, talvez por terem ouvido claramente o trocador ter chamado a todos de "americanos".

Conversas paralelas. A perpendicular que poderia uni-las, infelizmente, não abriga duas línguas. Foram embora os gringos gozando da irritação do trocador e de sua gafe por confundi-los com americanos. Foi embora o trocador, que conseguiu se livrar da irritação compartilhando o desabafo com o trocador e aqueles que, distraindo a volta pra casa, concordaram com sua versão da história, sustentada no orgulho ufanista de ser brasileiro vira-lata.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Penso Tenso

Adrenalina corre em minhas veias,
E eu não vou ficar omisso.
Não é a hora de ficar fora disso,
Está dentro de mim.
E em você?
Suas têmporas também latejam
Sacolejam
Como um vagão descarrilado,
Ou um buzão empanturrado
De dores de cabeça?

Penso. Tenso.
Tenso. Penso.

Será que há remédio para isso?
Um calmante coletivo que funcione
Em todo e qualquer indivíduo.
Um entretenimento irrestrito
Que descarregue toda raiva
Que aqui despejam feito lixo.

A paciência é a alma que não nega o ócio.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Duas duras realidades

Dura realidade I "Quando a lenda se transforma num fato, publica-se a lenda", disse o jornalista sensacionalista do clássico f...