quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um cordel de Moizés Nobre

"Eu vou contar pra vocês
A minha história muderna
Que fizemos no passado
Aqui mesmo na taberna.
Me aparece um engenheiro
Dizendo: — Esse seu puteiro
Está nos tempos da caverna!
Precisa modernizar,
Fazer um circuito fechado,
Passar uns filmes pornôs
Com vídeo game importado,
E ter um computador
Pra ser administrador.
Tô vendendo barato! -
Achei aquilo esquisito,
Conversa de vendedor,
Pois inté que eu ia bem
No comercio do amor.
Mas o sujeito insistente,
Termina enrolando a gente,
E comprei um computador.
Então veio o cabloco
Instalar o danado.
Eu então chamei Cidinha
Pra aprender seu bordado.
O moço tinha ciência,
E explicou com paciência
Cada botão do teclado.
Explicou o que era mouse,
Falou do que sabe,
No break, modem, planilha,
Software e backup,
Programa, aplicativo,
Reset, drive, arquivo,
Winchester, delete e escape.
Explicou como se liga,
Como entra, como chama,
Depois perguntou a Cida:
— Qual seria seu programa?
— De noite afogo o ganso
E de dia descanso.
É dia e noite na cama! -
O cabra perdeu a linha,
E veio se queixar pra eu:
— Expliquei o dia inteiro
E a moça não entendeu,
Preciso de moça fina,
Que a gente mal ensina
E a danada não aprendeu!
— Mas meu senhor,
Depois de tanto estudar,
Não sabe que no puteiro
Existe outro pensar?
Aqui não tem moça fina,
E rege outra doutrina,
Essas daqui pode explicar!
E pra quê computador,
Se dele ninguém desfruta,
É que nem disse a Cida
Que daqui é a mais astuta.
Tem coisa que não entendo,
Do Diabo ao mesmo tempo
Com puta mas não computa! –
Pois se ligue, até que gosto
Dessa tal de mudernagem,
Mas sou contra o preconceito
Que condena a vadiagem.
Adoro mulher e cachaça,
E é claro que não tem graça
A vida sem sacanagem!"

Moizés Nobre, também com alcunha de Zé Brasil, é cordelista, artista e produtor cultural de São Luís/MA.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Que obra assombrosa é o homem



"Que obra maravilhosa é o homem", disse por aí alguém orgulhoso com este bicho cognitivo chamado ser humano. Para o bem ou para o mal, tem mania de querer justificar seus complexos criando problemas. É sempre um ser com necessidades, que viram desejos, e por fim sonhos que se materializam em objetivos, muitas vezes bastante subjetivos.
Por exemplo, as ilhas artificais de Dubai, uma das cidades-modelo do capitalismo neoliberal. A cidade dos Emirados Árabes Unidos, uma ditadura de petrodólares muito bem quista pelo ocidente capitalista, estampa o busdoor da companhia de viagens da avenida Nossa Senhora de Copacabana, superengarrafada, rotulada de "cidade do futuro". De repente, um sheike trilhardário resolve fazer uma gigantesca enseada artifical, com extensão dez vezes maior que a própria Copacabana, e que, da vista aérea, de um helicóptero, ou até mesmo de um satélite, é possível ver suas iniciais, seu rosto feioso, enfim, algo semelhante. Recebe aplausos multinacionais pelo feito, apesar de alterar significamente a natureza das marés, que, após tamanha engenharia, provoca intensos assoreamentos. A solução é criar mais problemas: desvia-se a rota de correntes próximas para compensar a escassez provocada pela maré. E assim, sucessivamente, o ser humano acha que brinca ser deus, quando na verdade, cai num ciclo infernal, dispendioso financeiramente, trágico naturalmente, e que o único benefício - se é que pode se chamar de benefício - é alimentar o ego do tal sheike empreendedor. Que obra assombrosa é o homem!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Celebre

Celebre.
Cê leva de quebra
Cê lava a cara e a alma,
Cê lança, cê dança,
Cê cansa e cê amansa.

Ser lebre.
Ter febre, ser fibra,
Ser faca, ser caça,
Ser membros, tronco, cabeça,
E cérebro.

Ser celebridade.
Caso sério.

O mundo o garoto muda

Em resposta aos provocadores
Aquele garoto que ia mudar o mundo
Decidiu mudar o mundo.
Subiu no mais alto palanque
A convite de prefeitos e governadores
E expôs passaportes para uma excursão
A Marte.

O primeiro passo virou um capítulo na história,
O segundo, fotografia.

Quando voltou, acabou por ficar longe demais
De tudo e de todos,
E se viu com a cabeça no mundo da Lua.

Mesmo assim, daqui da Terra,
Pixaram-lhe as unhas dos pés,
Vandalizaram-lhe os calcanhares,
Fritaram-lhe as batatas das pernas,
E cozinharam-lhe o caráter no calçadão
Sob um sol de cinquenta e dois graus.

Lá do firmamento, o garoto emudeceu.
Viu que o mundo muda sozinho,
E se viu sozinho
Em algum breu.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Minimie

Mie, amore mio,
Mie a bit, like a bitch,
Biitinho.
Me ame que eu te mamo,
Me mame que eu te amo,

Me mime que eu te mimo,
Minimize aqui pertinho
Ronronando.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Acrobata da dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Reteza os músculos, reteza
Nessas macabras piruetas d´aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(Cruz e Souza)

sábado, 16 de novembro de 2013

Drops

Muito boa tarde, senhores passageiros
Peço-lhes a palavra com todo respeito
Poderia estar roubando ou ser daqueles
Que não tem jeito,
Mas de cara corajosa e peito aberto,
Ofereço o passatempo da viagem duradoura,
Que começa na semente e termina em manjedoura,
Que inicia destemida e acaba sofredora,
E o tempo em cima passa,
E no espaço ficam marcas,
Se o senhor marcar bobeira,
Mas deixa de fiar esta conversa
Que eu não estou de brincadeira,
Leva um quem pagar mais
Amarra o santo, prende na cadeira,
Mas trago um drops de mente
Mais barata que o maior barato
De marca chamada mundo
Vindouro neste coletivo estribeiro.
É a mais nova promoção do camelô.

Duas duras realidades

Dura realidade I "Quando a lenda se transforma num fato, publica-se a lenda", disse o jornalista sensacionalista do clássico f...