Tive um sonho bizarro. Consegui de repente mover uma caixa de papel, depositada sobre uma mesa, usando apenas o poder da mente. Fiquei espantado mas ao mesmo tempo curioso, e passei a tentar repetir o feito. Não conseguia de jeito algum mover um centímetro da caixa. Às vezes movia, mas achava que era o vento.
Chegou um ponto que fiquei impaciente e angustiado, decidi desistir e esquecer meu breve poder de mexer as coisas com a mente, quando de súbito, aparece o Ronaldo, aquele que brilha muito no Corínthians, e me diz com sua voz característica:
- Calma, eu demorei três meses para conseguir isso!
Neste momento, ali parado e olhando fixamente para uma caixa de papel, não me surpreendi muito com o aparecimento do jogador, e continuei perseverante.
Aí acontece uma passagem de tempo... Ao redor de uma mesa e imerso num ar enfumaçado, amigos avulsos da faculdade opinavam sobre física quântica e o poder da mente. Até Ronaldo dava suas opiniões...
Ainda estou divagando sobre o significado disso tudo...
Porque é dela onde brotam fungos, transforma-se húmus, sucumbem túmulos, surgem larvas que se multiplicam e irradiam cheiro, cor e o ciclo da vida faz-se em flor.
terça-feira, 18 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Quem pede desculpa
Sempre leva a culpa
Por conta própria.
Quem pede perdão
Sempre fica na mão
De quem concede resposta.
Quem se vitimiza
Não se solidariza
Em dividir a culpa.
Quem sempre se culpa
Acaba viciado
Em desculpa fajuta.
Quem sempre se cobra
Carrega nas costas
A acidez das derrotas.
Quem sempre reclama
Só enxerga dificuldades
Na gama de possibilidades.
Sempre leva a culpa
Por conta própria.
Quem pede perdão
Sempre fica na mão
De quem concede resposta.
Quem se vitimiza
Não se solidariza
Em dividir a culpa.
Quem sempre se culpa
Acaba viciado
Em desculpa fajuta.
Quem sempre se cobra
Carrega nas costas
A acidez das derrotas.
Quem sempre reclama
Só enxerga dificuldades
Na gama de possibilidades.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
"2014 é logo ali..."
Será que é pura teoria da conspiração, ou há mesmo esse interesse de que o Brasil deixe para ganhar a Copa em 2014, com toda seriedade?
Não que esse time do Dunga não tenha brios. Tem. O cara vem mantendo uma coerência há anos, e vem ganhando tudo que disputa. É uma coerência a la Dunga - que, (quem se lembra) era uma toupeira com cérebro do tamanho de uma noz no meio-campo, mas era um excelente cão de guarda como volante.
Daí a convocação do cara só ter volantes, pois é o que mais foi exportado para a Europa nos últimos tempos, junto com atacantes, claro. Todos esses volantes são "multifuncionais", podem armar jogadas - segundo a visão do "professor" Dunga. E essa é a tática, que vem funcionando desde 2006, quando descobriram a posição do "volante armador". Daí muitos volantes que sabiam um pouquinho de domínio da bola passaram a ser considerados verdadeiros armadores. Mas não são. O Kléberson é um grande exemplo disso: de 30 passes, acerta um que resulta num gol. Claro! Até eu quando jogava na rodó! Só que há uma grande diferença entre ser um armador e fazer isso.
Acontece que num jogo isso pode dar certo. A Itália foi campeã em 2006 jogando um futebol feio de ver. Ninguém do mundo escala a seleção da Itália de 2006. O Dunga aposta nisso: um futebol funcional.
Ele não é técnico, e por ter esse comportamento faz o contrário do que se vê no histórico de copas do mundo da seleção. Até o Parreira em 2004 arriscou o Ronaldo (hoje Gordômeno), que tinha 17 anos. Mal comparando, o Pelé estreou em Copas também com a mesma idade. Porra, uma seleção que não tem meia de criação, com tantos meias brasileiros jogando bem por aí, e o Dunga só chama o Kaká?? É "jogar só pra competir", o que é contra a filosofia da seleção brasileira!
A lista do cara tem Josué (quem?), Gilberto Silva (o vip da seleção), Doni (reserva do reserva do gandula no time dele), Kleberson (deu três passes certos nos últimos vinte jogos), Elano (um pouco melhor que Kleberson), Felipe Melo (jogador de empresário), Ramires, e à frente Kaká (que não é meia de criação, é quase um centroavante) e Júlio Batista (outro vip da seleção, mas às vezes acerta um urubu sem asa na gaveta quando entra no 2º tempo, e muitas vezes é um gol decisivo.
É. Pode dar certo. A Copa é um torneio de apenas sete jogos. O time passa da primeira fase em primeiro (Portugal treme quando joga contra o Brasil). O resto é mata-mata. Mas que vai ser feio de ver, vai.
Quando a intenção não é convocar os melhores, mas os mais rentávei$, acabou essa tradição e orgulho dos times que cedem jogadores. O verdadeiro objetivo nessa Copa é torrar o restante do dinheiro do passe desses todos esses volantes, que dificilmente jogarão outra Copa. Por isso Dunga quase fraquejou em convocar o Adriano, mesmo sabendo que o cara não tinha as mínimas condições de ser chamado. Aposto que se ele fizesse um gol contra o Corínthians na última quarta, mesmo de pênalti, ele iria ser chamado!
Mas, falando do Adriano, o que importa é a seleção de daqui a pouco! Deixa a Copa pra depois, afinal, como diria o Vanucci, "2014 é logo ali...."
Ou melhor, aqui.
Saudações Rubro-Negras!
Não que esse time do Dunga não tenha brios. Tem. O cara vem mantendo uma coerência há anos, e vem ganhando tudo que disputa. É uma coerência a la Dunga - que, (quem se lembra) era uma toupeira com cérebro do tamanho de uma noz no meio-campo, mas era um excelente cão de guarda como volante.
Daí a convocação do cara só ter volantes, pois é o que mais foi exportado para a Europa nos últimos tempos, junto com atacantes, claro. Todos esses volantes são "multifuncionais", podem armar jogadas - segundo a visão do "professor" Dunga. E essa é a tática, que vem funcionando desde 2006, quando descobriram a posição do "volante armador". Daí muitos volantes que sabiam um pouquinho de domínio da bola passaram a ser considerados verdadeiros armadores. Mas não são. O Kléberson é um grande exemplo disso: de 30 passes, acerta um que resulta num gol. Claro! Até eu quando jogava na rodó! Só que há uma grande diferença entre ser um armador e fazer isso.
Acontece que num jogo isso pode dar certo. A Itália foi campeã em 2006 jogando um futebol feio de ver. Ninguém do mundo escala a seleção da Itália de 2006. O Dunga aposta nisso: um futebol funcional.
Ele não é técnico, e por ter esse comportamento faz o contrário do que se vê no histórico de copas do mundo da seleção. Até o Parreira em 2004 arriscou o Ronaldo (hoje Gordômeno), que tinha 17 anos. Mal comparando, o Pelé estreou em Copas também com a mesma idade. Porra, uma seleção que não tem meia de criação, com tantos meias brasileiros jogando bem por aí, e o Dunga só chama o Kaká?? É "jogar só pra competir", o que é contra a filosofia da seleção brasileira!
A lista do cara tem Josué (quem?), Gilberto Silva (o vip da seleção), Doni (reserva do reserva do gandula no time dele), Kleberson (deu três passes certos nos últimos vinte jogos), Elano (um pouco melhor que Kleberson), Felipe Melo (jogador de empresário), Ramires, e à frente Kaká (que não é meia de criação, é quase um centroavante) e Júlio Batista (outro vip da seleção, mas às vezes acerta um urubu sem asa na gaveta quando entra no 2º tempo, e muitas vezes é um gol decisivo.
É. Pode dar certo. A Copa é um torneio de apenas sete jogos. O time passa da primeira fase em primeiro (Portugal treme quando joga contra o Brasil). O resto é mata-mata. Mas que vai ser feio de ver, vai.
Quando a intenção não é convocar os melhores, mas os mais rentávei$, acabou essa tradição e orgulho dos times que cedem jogadores. O verdadeiro objetivo nessa Copa é torrar o restante do dinheiro do passe desses todos esses volantes, que dificilmente jogarão outra Copa. Por isso Dunga quase fraquejou em convocar o Adriano, mesmo sabendo que o cara não tinha as mínimas condições de ser chamado. Aposto que se ele fizesse um gol contra o Corínthians na última quarta, mesmo de pênalti, ele iria ser chamado!
Mas, falando do Adriano, o que importa é a seleção de daqui a pouco! Deixa a Copa pra depois, afinal, como diria o Vanucci, "2014 é logo ali...."
Ou melhor, aqui.
Saudações Rubro-Negras!
Observação
Os textos publicados aqui não refletem necessaria e momentaneamente o pensamento de quem os escreve.
terça-feira, 11 de maio de 2010
"Mais, quero mais..."
Um dia o rei Roberto Carlos disse que gostaria de ter composto a canção "Qualquer Coisa", de Caetano Veloso.
Ah, eu também gostaria de ter composto uma música! "Vida", uma espécie de releitura chicobuarquiana de "I can get no satisfaction".
Comparação louca, não?
"I Can Get No Satisfaction... ´cause I tried!
When I'm watchin' my TV
"Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz
(...)
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais"
Ah, eu também gostaria de ter composto uma música! "Vida", uma espécie de releitura chicobuarquiana de "I can get no satisfaction".
Comparação louca, não?
"I Can Get No Satisfaction... ´cause I tried!
When I'm watchin' my TV
And that man comes on to tell me
How white my shirts can be
But he can't be a man 'cause he doesn't smoke
The same cigarettes as me
When I'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh, no, no, no
Hey, hey, hey, that's what I say"
"Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz
(...)
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais"
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Conto do pintor
"Conto do pintor", a música cantada originalmente por Moreira da Silva, e sua versão setentista feita por Jards Macalé, do álbum "Contrastes" (1977), no vídeo abaixo.
Conto do Pintor
Moreira da Silva
Composição: Miguel Gustavo
Desembarquei fantasiado de pintor
No aeroporto já encontrei o Ibrahim
Fez um discurso e apresentou-me ao Dourado
que já de cara deu apartamento para mim.
- Moringueira vais levar um duplex?
- É o seguinte, eu não mereço, eu não mereço tanto. É muita gentileza sua.
Fomos direto ao museu de arte moderna
A grande obra de madame Guiomar
Condecorando-me com a ordem do vaqueiro
O Chateaubriand quase chegou a me estranhar
- Embaixador, deixa isso pra lá. Vossa excelência que é o admirador e protetor das artes do Brasil.
Mas ali mesmo demonstrei o meu talento
Pintei triângulos redondos e um quadrado todo oval
Eles olhavam perturbados e diziam
"Esse Moreira é um artista genial!"
Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"
Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"
Pintei um quadro só por fora das molduras
Eu joguei tinta nas paredes todo mundo achou legal
Eu comi rosas e as madames exclamaram
"Esse Moreira é um artista genial!"
E eu que não pintava nem nos muros da Central!
Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"
Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"
Fui à Brasília dei um quadro de presente ao maioral. Era um triângulo redondo, mas Nonô achou legal.
Conto do Pintor
Moreira da Silva
Composição: Miguel Gustavo
Desembarquei fantasiado de pintor
No aeroporto já encontrei o Ibrahim
Fez um discurso e apresentou-me ao Dourado
que já de cara deu apartamento para mim.
- Moringueira vais levar um duplex?
- É o seguinte, eu não mereço, eu não mereço tanto. É muita gentileza sua.
Fomos direto ao museu de arte moderna
A grande obra de madame Guiomar
Condecorando-me com a ordem do vaqueiro
O Chateaubriand quase chegou a me estranhar
- Embaixador, deixa isso pra lá. Vossa excelência que é o admirador e protetor das artes do Brasil.
Mas ali mesmo demonstrei o meu talento
Pintei triângulos redondos e um quadrado todo oval
Eles olhavam perturbados e diziam
"Esse Moreira é um artista genial!"
Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"
Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"
Pintei um quadro só por fora das molduras
Eu joguei tinta nas paredes todo mundo achou legal
Eu comi rosas e as madames exclamaram
"Esse Moreira é um artista genial!"
E eu que não pintava nem nos muros da Central!
Mais que depressa eu vendi noventa quadros
Depois de dar uns dois ou três em benefício
Entrevistado pelo Rúbens do Amaral
eu respondi "ora, que nada, é meu ofício"
Pintei vassouras com feitio de espadas
Pintei espadas qual vassouras
Retirei-me do local
Mas a ilustríssima platéia delirava
"Esse Moreira é um artista genial!"
Fui à Brasília dei um quadro de presente ao maioral. Era um triângulo redondo, mas Nonô achou legal.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
As águas estão certas
O Rio de Janeiro é uma cidade peculiar. Uma metrópole situada num local cuja natureza geográfica nunca aceitaria um crescimento urbano intenso. A faixa entre a serra e o mar é relativamente estreita e extremamente acidentada para o brotamento de centenas de arranha-céus deslumbrantes, milhares de vias asfaltadas por onde circulam milhões de carros diariamente, incontáveis esqueletos de casas nos morros, e uma arrebatante cultura que privilegia sempre o privado sobre o público.
Este não foi o primeiro temporal que castigou o dia-a-dia do carioca. Também não será o último. Todos os anos as águas de março fecham o verão sem a mínima beleza dos versos de Tom Jobim. Nos pontos de sempre, a água chega até os joelhos, alagamentos param o trânsito por horas, entes queridos são perdidos, vitimados por deslizamentos ou enchentes.
Quero repetir: esta situação ocorre nos pontos de sempre. Nunca governante algum, prefeito ou governador, realizou obras de infra estrutura que contivessem este problema anual. Como no atual governo, privilegiaram sempre obras de maquiagem, para agradar os olhos e iludir os eleitores. Infra estrutura nunca entra na "agenda" dos políticos.
Neste ano, após o caos, o prefeito Eduardo Paes prometeu investir R$ 100 milhões em obras emergenciais. Depois da tempestade, depois da portaria arrombada, movem-se os traseiros. Durante todo verão este comportamento se repete, como no caso da epidemia de dengue. É bom lembrar que a epidemia de dengue não está dissociada das consequências dos temporais. Os nascedouros do mosquito têm origem justamente na soma do lixo com a água da chuva que não é escoada.
Quem passa pela região do Cais do Porto, na avenida Rodrigues Alves, sob o viaduto perimetral, vê como é a cara de todas as administrações que passaram pelo Rio de Janeiro. No extremo mais próximo ao Centro do Rio, há imensos tapumes da Prefeitura persuadindo a população de que este será o "Porto Maravilha", de braços abertos para investimentos privados. Mas nos locais esquecidos pelos investimentos, vê-se o retrato do abandono: lixo, muito lixo, esgotos que entopem em qualquer chuva e chegam a invadir as calçadas esburacadas, ruas escuras, sentimento de insegurança. E este exemplo do abandono é tão descarado que este cenário se encontra justamente à frente da rodoviária da cidade, onde gente de todo Brasil chega de ônibus ao Rio de Janeiro.
Não são apenas moradias de favelas que estão situadas em áreas de risco em encostas. Mansões no Recreio dos Bandeirantes, em São Conrado e em outros bairros de alto IPTU abrigam casas que, mesmo regularizadas, possuem iminente perigo de deslizarem. Da mesma forma, sempre ouvi dizer que os bairros da Barra e do Recreio estão num terreno arenoso que pode ruir sob condições intemperismo intenso. Lógico que haverá engenheiros com respostas prontas negando tais afirmações, mas diante de nosso clima indomável, não haveria motivo para preocupações e prevenções?
A cultura inabalável do privado sobre o público é uma verdadeira endemia carioca. Muitas ruas alagam sob qualquer chuva porque os bueiros entopem simplesmente devido ao comodismo de moradores que pensam que fazem suas partes ao colocar os lixos domésticos em sacolas plásticas amarradas no chão da calçada, ao pé dos postes. Meses atrás um menino de oito anos morreu em consequência da chuva no bairro de Quintino. As águas que ali corriam levavam amontoados de sacolas de lixo. Na Rua do Resende, no bairro da Lapa, basta chover um pouco mais forte para a maré bater na canela, e as causas são as mesmas: lixo na calçada.
Enquanto remediar for mais viável que prevenir, apenas por ser mais barato, enfrentaremos este problema. A culpa não é da chuva intensa, afinal, num país tropical, abençoado por Deus, nesta estufa chamada Mata Atlântica, entre a serra e o mar, não importa se há cristos redentores ou viadutos, arranha-céus ou barracos, as águas de março virão anualmente fechar o verão, como sempre o fizeram, muito antes de serem cantadas em versos.
Este não foi o primeiro temporal que castigou o dia-a-dia do carioca. Também não será o último. Todos os anos as águas de março fecham o verão sem a mínima beleza dos versos de Tom Jobim. Nos pontos de sempre, a água chega até os joelhos, alagamentos param o trânsito por horas, entes queridos são perdidos, vitimados por deslizamentos ou enchentes.
Quero repetir: esta situação ocorre nos pontos de sempre. Nunca governante algum, prefeito ou governador, realizou obras de infra estrutura que contivessem este problema anual. Como no atual governo, privilegiaram sempre obras de maquiagem, para agradar os olhos e iludir os eleitores. Infra estrutura nunca entra na "agenda" dos políticos.
Neste ano, após o caos, o prefeito Eduardo Paes prometeu investir R$ 100 milhões em obras emergenciais. Depois da tempestade, depois da portaria arrombada, movem-se os traseiros. Durante todo verão este comportamento se repete, como no caso da epidemia de dengue. É bom lembrar que a epidemia de dengue não está dissociada das consequências dos temporais. Os nascedouros do mosquito têm origem justamente na soma do lixo com a água da chuva que não é escoada.
Quem passa pela região do Cais do Porto, na avenida Rodrigues Alves, sob o viaduto perimetral, vê como é a cara de todas as administrações que passaram pelo Rio de Janeiro. No extremo mais próximo ao Centro do Rio, há imensos tapumes da Prefeitura persuadindo a população de que este será o "Porto Maravilha", de braços abertos para investimentos privados. Mas nos locais esquecidos pelos investimentos, vê-se o retrato do abandono: lixo, muito lixo, esgotos que entopem em qualquer chuva e chegam a invadir as calçadas esburacadas, ruas escuras, sentimento de insegurança. E este exemplo do abandono é tão descarado que este cenário se encontra justamente à frente da rodoviária da cidade, onde gente de todo Brasil chega de ônibus ao Rio de Janeiro.
Não são apenas moradias de favelas que estão situadas em áreas de risco em encostas. Mansões no Recreio dos Bandeirantes, em São Conrado e em outros bairros de alto IPTU abrigam casas que, mesmo regularizadas, possuem iminente perigo de deslizarem. Da mesma forma, sempre ouvi dizer que os bairros da Barra e do Recreio estão num terreno arenoso que pode ruir sob condições intemperismo intenso. Lógico que haverá engenheiros com respostas prontas negando tais afirmações, mas diante de nosso clima indomável, não haveria motivo para preocupações e prevenções?
A cultura inabalável do privado sobre o público é uma verdadeira endemia carioca. Muitas ruas alagam sob qualquer chuva porque os bueiros entopem simplesmente devido ao comodismo de moradores que pensam que fazem suas partes ao colocar os lixos domésticos em sacolas plásticas amarradas no chão da calçada, ao pé dos postes. Meses atrás um menino de oito anos morreu em consequência da chuva no bairro de Quintino. As águas que ali corriam levavam amontoados de sacolas de lixo. Na Rua do Resende, no bairro da Lapa, basta chover um pouco mais forte para a maré bater na canela, e as causas são as mesmas: lixo na calçada.
Enquanto remediar for mais viável que prevenir, apenas por ser mais barato, enfrentaremos este problema. A culpa não é da chuva intensa, afinal, num país tropical, abençoado por Deus, nesta estufa chamada Mata Atlântica, entre a serra e o mar, não importa se há cristos redentores ou viadutos, arranha-céus ou barracos, as águas de março virão anualmente fechar o verão, como sempre o fizeram, muito antes de serem cantadas em versos.
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