segunda-feira, 1 de abril de 2019

Duas duras realidades

Dura realidade I
"Quando a lenda se transforma num fato, publica-se a lenda", disse o jornalista sensacionalista do clássico filme dirigido por John Ford, "O homem que matou o facínora", de 1963. Falei da frase numa aula de formação de público de cinema para uma turma de oitava série de uma escola pública da Barra (os alunos eram de Rio das Pedras), e uma menina, quando me despedia de todos, chamou-me a atenção: "Tio, a frase não seria: 'quando a lenda se transforma em realidade, publica-se um livro'?" Brilhou nos olhos questionadores dessa menina, quieta durante toda aula entre suas colegas travessas, uma esperança curiosa. Eu expliquei a frase do filme, ela entendeu e ainda citou como exemplo a Globo e sua atuação nas manifestações. Pairou um ceticismo após ela dizer que não acreditava em lendas, e eu citei duas que viraram livros (e filmes): Betinho e Chico Mendes, dois nomes desconhecidos por ela. Pedi para que pesquisasse. Depois a diretora da escola veio me dizer que a menina tinha síndrome do pânico e que sua mãe já tentou matá-la...
Dura realidade II
Em outra escola, dessa vez na Cidade de Deus, perguntei se os alunos conheciam algum lugar que, como nos filmes de faroeste, era uma terra onde a lei era a da bala... Pergunta provocativa, claro. Resposta de bate-pronto: "é aqui mesmo, fessô!"

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Pirataria

Pirataria
Roubo de carga
A transição da nossa Idade Média
Perpetua o saque
Dos donos dos mares sempre navegáveis
Na pedra ou no canhão
Na lei ou no fuzil
O Rio é um feudo de feudos misturados
O Velho Oeste também está na Zona Norte e na Baixada
Polícia mineira é bisneta da inquisição
Guarnição não-oficial de capitanias hereditárias

"A lei maior é a de deus"
Disse o homem convencido
Pelo diabo.

Deus me deu esta terra que tomei dos índios.
Deus me deu esta herança, pena que num bairro de fodidos.
Deus me deu um rostinho bonito,
Noventa porcento anjo, dez porcento mau caráter.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pressione

Pressione
Impressione
Passione
Pasión
Passion
Paixão
Até o chão

Pressione
Até o chão

A terra vai ser plana
Achata a terra
A terra vai ser grama
Atola na terra

Pocotando pelo quintal
Tá tudo legal
Vomitaram na telenovela
Estrelado por algum boçal.

Qual é o plano?
A terra agora vai ser plana?

O plano é outro

Terra achatada
Vira moeda,
É cara-de-pau
Ou coroa de reis

Terra ocupada
Vira favela
Pela marginal
Ou pela marquês

Mas é,
Maria José,
Não tão ligando
Lé com cré,

Tá sempre tudo sacal
Na boca pequena
Que ninguém crê.

Mas é,
Maria José,
Tão pagando
Pra vê

Como é que é meter
O nariz
Onde ninguém vê.

Desníveis nas ondas do cérebro
Um vento alucinógeno vindo do sul

Pressione

Sub do sub


Sinto muito, major,
Mas cê não é o maior,
Cê é só um diletante
Perto do comandante
Que se porta de capacho
Diante do generalato
Que no todo é tudo igual
À frente do marechal
Que é um figurão
Ao lado do capitão
Que é tão decadente
Dando ordem no tenente
Que só não é cruel
Quando chega o coronel
Dando ordem pra danado
Em cima do soldado

Sub do sub do sub do sub
Sendo sub cê vai subindo

Pinta o muro de branco
É a bandeira da paz
Pinta o muro de azul
Depois solta o pitbull
Pinta o muro de verde
Planta grama pro pasto
Pinta o muro de amarelo
Depois dos cento e cinquenta
Polichinelos

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Vale

Resultado de imagem para sonho

Já passaram além do amor
Tem que passar além da dor

Mas preferem que valha a pena
Só aos que têm alma pequena

Todos os sonhos do mundo
Crescerão de lá do fundo

domingo, 3 de fevereiro de 2019

A bunda abunda

Ao menos se discute
A bunda que evolui
Que cresce na cabeça
E despe e que conduz

A bunda é sujeita
A ser um objeto
A bunda está em todos
No pai, no avô, no neto

Bunda que rebola
Que baila toda noite
Bunda que amortece
O delicado açoite

A bunda é cobiçada
É cheia de fartura.
Tem carne e tem gordura
Pra queimar numa estufa.

A bunda é um começo
De um grande canal
Mas pode ser um fim
Questão vetorial


Bunda que protege
Tamanha estrutura
Balança e amortece
E quica nas alturas

Bunda fotogênica
De estrias escondidas
Que ocupa dois assentos
De tão desinibida



A bunda é a resposta
Tá na mente das massas
Mas se perde a aposta
Por ela nada passa

É bunda maquiada
Na tela da edição
Moleza amenizada
Pra nacional paixão

A bunda é ativa
Como força motriz
E dela se apropria
A imagem de um país

Também é genitália
Faz parte do conjunto
Bunda é matemática
Espelho deste mundo

A sua bunda
A sua bunda
A sua bunda
Sua

A bunda sua
A bunda sua
A bunda sua
Abunda

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019




Pantomimeiros,
Pelos rostos vejo o quanto bostejam
Do alto de seus poleiros
Fingindo-se sorrateiros...
Mal sabem o quanto são dissimulados.
Fazem do escárnio seu ofício,
Despejam desafios pelos orifícios.

Pantomimeiros,
Se estão no firmamento postos,
Seria o néctar dos deuses
Chás alucinógenos?
Seria o céu paraíso
De Dionísio ou Baco?
Ou estaria eu
De cabeça para baixo?

Produto Interno Puto e a desordem natural das coisas




A desordem dos fatores
- Felicidade é riqueza,
Riqueza não é felicidade
- Altera nosso Produto
Interno Puto.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Ô, rapaz


Ô rapaz, ô rapaz,
O que você faz,
Ô, rapaz?

- Um rap
Da guerra,
Um rock
Da paz,
Um muro
Da casa,
Um livro
A mais,
Um ponto
Suado,
Um bico
Forçado,
Um quinto
Cobrado
Pelo
Capataz.

- Uma rima
Rimada,
Uma rumba
Roubada,
Um rombo
Por cima do ombro,
Um ramo
Pra baixo do escombro,
Uns fatos
Malfeitos,
Uns fetos
Feridos,

Umas fitas
Surtadas,
Umas fotos
Fajutas.

Ô rapaz, ô rapaz,
Quem te conhece
Te esquece,
Rapaz?

- Uma mina
Do bairro,
Um mano
Bolado,
Um modo
Proibido,
Um mundo
Privado,
Um fardo
Diário,
Uma foda
Zerada,
Um filho
Bastardo,
Uma fruta
Mofada,

Um ingresso
Intimado,
Um impasse
Sobre a vida.

Ô rapaz, ô rapaz,
Do que você é
Capaz?

Ser um a menos,
Ser um a mais.

- Somai,
Samurai,
Somai.

Sempre bom lembrar (descrição)

Porque é dela onde brotam fungos, transforma-se húmus, sucumbem túmulos, surgem larvas que multiplicam-se e irradiam cheiro, cor e o ciclo da vida faz-se em flor.

Sempre bom lembrar.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Homem lixo


 Se pensasse em comida, a fome batia, remoía o estômago e trepidava as pernas finas. Era melhor ser tão vazio na cabeça quanto na barriga. Se resmungasse do frio, estremecia o tronco e não se movia. Nem forças mais tinha para esmolar, nem necessário era franzir os sulcos do rosto em expressão de quem clama por qualquer miséria. Deixava a aflição acometê-lo naturalmente. Na esquina a pena não estava mais, e ele era um empecilho, se se notasse, perceberia como a inconveniência personificava-se em sua pessoa. Um indigente que ainda se sustentava nos pés descalços de gigantes unhas tortas e encravadas. Não se vestia, era enrolado por farrapos encardidos que antes eram roupas. A pele morena escura era mais escurecida pelas cracas gordurentas, o cabelo crespo era tufos ensebados. O rosto inchado esbugalhava os olhos avermelhados. O olhar direcionava-se ao nada.

Certa vez porém saiu da inércia. Moveu-se lentamente em direção a uma lixeira laranja de plástico pregada no poste mais próximo. A razão poderia ser a fome, a angústia, a vontade de se mover para espantar o frio. Sabe-se lá o motivo que estendeu o braço e o enfiou na boca estreita da lixeira, quase entupida. Quanto mais enfiava, mais lixo saltava. Perseverante, notou que cabia mais de seu corpo. Desejava ser engolido por ela. De repente, a lixeira, como se o ajudasse, moveu-se em sua direção, esticando as laterais da boca para que o coubesse. O braço direito entrou por completo. Alguns copos plásticos, sacos de biscoito e latas de refrigerante caíram no chão para dar-lhe mais espaço. Arriscou o braço esquerto, sem dificuldades. A cabeça poderia entrar com alguns centímetros de boca mais aberta. Raspou alguns tufos na entrada, ralou a testa, saiu sangue, mas conseguiu enfiar o crânio. Era só deixar deslizar o tronco e o restante do corpo.

Por fim, sumiu do mundo externo ao recipiente. Fez daquela lixeira de plástico laranja seu abrigo. Lá dentro era possível encontrar toneladas de material que se reciclado poderiam o tornar milionário, quilos e mais quilos de matéria prima que se usada de forma sustentável o manteria vivo por décadas, comida abundante capaz de alimentar um terço da população mundial, e mais da metade da água potável do mundo, que se utilizada pelos de lá de fora com responsabilidade, jamais haveria sede, terras desgastadas e desigualdades entre seres humanos.

Preferiu ficar ali dentro para sempre, pequeno diante de tanta fartura. Era ele, o lixo e todo desperdício do mundo.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Homem-macaco-homem



Homem-macaco:
Antes era fácil subir em árvore para colher fartas pencas.
Hoje gasta milhões na maior das tecnologias para arrancar uma banana saborosa, geneticamente modificada.

Macaco-homem:
Preso atrás das grades no zoológico, sorri para não encarar a solidão o chimpanzé tabagista. Não sabe se prefere a extinção ou se candidata a prefeitura.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Neste carnaval...

... Pierrô descoloriu a face, foi fumar cigarro depois de talagar pinga. Arlequins, encontram-se no atacado, mas ainda têm seus valores, posto que alegria tornou-se artigo de luxo. Colombina, melindrosa, ainda dá o ar da graça, mas os olhos refletem o cinzento do céu. Na cidade maravilhosa, neste carnaval, a commedia dell´arte carrega amargura na jocosidade. 

Ah, se ao menos as fantasias fossem socialmente permitidas após a quarta-feira de cinzas.

Pode até ser soturno, mas ainda sim é carnaval.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um cordel de Moizés Nobre

"Eu vou contar pra vocês
A minha história muderna
Que fizemos no passado
Aqui mesmo na taberna.
Me aparece um engenheiro
Dizendo: — Esse seu puteiro
Está nos tempos da caverna!
Precisa modernizar,
Fazer um circuito fechado,
Passar uns filmes pornôs
Com vídeo game importado,
E ter um computador
Pra ser administrador.
Tô vendendo barato! -
Achei aquilo esquisito,
Conversa de vendedor,
Pois inté que eu ia bem
No comercio do amor.
Mas o sujeito insistente,
Termina enrolando a gente,
E comprei um computador.
Então veio o cabloco
Instalar o danado.
Eu então chamei Cidinha
Pra aprender seu bordado.
O moço tinha ciência,
E explicou com paciência
Cada botão do teclado.
Explicou o que era mouse,
Falou do que sabe,
No break, modem, planilha,
Software e backup,
Programa, aplicativo,
Reset, drive, arquivo,
Winchester, delete e escape.
Explicou como se liga,
Como entra, como chama,
Depois perguntou a Cida:
— Qual seria seu programa?
— De noite afogo o ganso
E de dia descanso.
É dia e noite na cama! -
O cabra perdeu a linha,
E veio se queixar pra eu:
— Expliquei o dia inteiro
E a moça não entendeu,
Preciso de moça fina,
Que a gente mal ensina
E a danada não aprendeu!
— Mas meu senhor,
Depois de tanto estudar,
Não sabe que no puteiro
Existe outro pensar?
Aqui não tem moça fina,
E rege outra doutrina,
Essas daqui pode explicar!
E pra quê computador,
Se dele ninguém desfruta,
É que nem disse a Cida
Que daqui é a mais astuta.
Tem coisa que não entendo,
Do Diabo ao mesmo tempo
Com puta mas não computa! –
Pois se ligue, até que gosto
Dessa tal de mudernagem,
Mas sou contra o preconceito
Que condena a vadiagem.
Adoro mulher e cachaça,
E é claro que não tem graça
A vida sem sacanagem!"

Moizés Nobre, também com alcunha de Zé Brasil, é cordelista, artista e produtor cultural de São Luís/MA.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Que obra assombrosa é o homem



"Que obra maravilhosa é o homem", disse por aí alguém orgulhoso com este bicho cognitivo chamado ser humano. Para o bem ou para o mal, tem mania de querer justificar seus complexos criando problemas. É sempre um ser com necessidades, que viram desejos, e por fim sonhos que se materializam em objetivos, muitas vezes bastante subjetivos.
Por exemplo, as ilhas artificais de Dubai, uma das cidades-modelo do capitalismo neoliberal. A cidade dos Emirados Árabes Unidos, uma ditadura de petrodólares muito bem quista pelo ocidente capitalista, estampa o busdoor da companhia de viagens da avenida Nossa Senhora de Copacabana, superengarrafada, rotulada de "cidade do futuro". De repente, um sheike trilhardário resolve fazer uma gigantesca enseada artifical, com extensão dez vezes maior que a própria Copacabana, e que, da vista aérea, de um helicóptero, ou até mesmo de um satélite, é possível ver suas iniciais, seu rosto feioso, enfim, algo semelhante. Recebe aplausos multinacionais pelo feito, apesar de alterar significamente a natureza das marés, que, após tamanha engenharia, provoca intensos assoreamentos. A solução é criar mais problemas: desvia-se a rota de correntes próximas para compensar a escassez provocada pela maré. E assim, sucessivamente, o ser humano acha que brinca ser deus, quando na verdade, cai num ciclo infernal, dispendioso financeiramente, trágico naturalmente, e que o único benefício - se é que pode se chamar de benefício - é alimentar o ego do tal sheike empreendedor. Que obra assombrosa é o homem!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Celebre

Celebre.
Cê leva de quebra
Cê lava a cara e a alma,
Cê lança, cê dança,
Cê cansa e cê amansa.

Ser lebre.
Ter febre, ser fibra,
Ser faca, ser caça,
Ser membros, tronco, cabeça,
E cérebro.

Ser celebridade.
Caso sério.

O mundo o garoto muda

Em resposta aos provocadores
Aquele garoto que ia mudar o mundo
Decidiu mudar o mundo.
Subiu no mais alto palanque
A convite de prefeitos e governadores
E expôs passaportes para uma excursão
A Marte.

O primeiro passo virou um capítulo na história,
O segundo, fotografia.

Quando voltou, acabou por ficar longe demais
De tudo e de todos,
E se viu com a cabeça no mundo da Lua.

Mesmo assim, daqui da Terra,
Pixaram-lhe as unhas dos pés,
Vandalizaram-lhe os calcanhares,
Fritaram-lhe as batatas das pernas,
E cozinharam-lhe o caráter no calçadão
Sob um sol de cinquenta e dois graus.

Lá do firmamento, o garoto emudeceu.
Viu que o mundo muda sozinho,
E se viu sozinho
Em algum breu.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Minimie

Mie, amore mio,
Mie a bit, like a bitch,
Biitinho.
Me ame que eu te mamo,
Me mame que eu te amo,

Me mime que eu te mimo,
Minimize aqui pertinho
Ronronando.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Acrobata da dor



Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta, clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Reteza os músculos, reteza
Nessas macabras piruetas d´aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(Cruz e Souza)

sábado, 16 de novembro de 2013

Drops

Muito boa tarde, senhores passageiros
Peço-lhes a palavra com todo respeito
Poderia estar roubando ou ser daqueles
Que não tem jeito,
Mas de cara corajosa e peito aberto,
Ofereço o passatempo da viagem duradoura,
Que começa na semente e termina em manjedoura,
Que inicia destemida e acaba sofredora,
E o tempo em cima passa,
E no espaço ficam marcas,
Se o senhor marcar bobeira,
Mas deixa de fiar esta conversa
Que eu não estou de brincadeira,
Leva um quem pagar mais
Amarra o santo, prende na cadeira,
Mas trago um drops de mente
Mais barata que o maior barato
De marca chamada mundo
Vindouro neste coletivo estribeiro.
É a mais nova promoção do camelô.

Duas duras realidades

Dura realidade I "Quando a lenda se transforma num fato, publica-se a lenda", disse o jornalista sensacionalista do clássico f...